terça-feira, 8 de junho de 2010

Debate na TV da Assembleia Legislativa

No último dia 28/05 a convite da TV Sinal,da Assembleia Legislativa do Paraná participei de um debate sobre o acordo Brasil-Turquia-Irã, sua repercussão e consequencias,além de uma reflexão sobre a política externa brasileira. Hoje a TV Sinal disponibilizou a íntegra dos programas em seu site. O programa Plano Geral,dividido em três blocos pode ser visto nos links abaixo:

http://www.alep.pr.gov.br/video/plano-geral-brasil-e-ira-bloco-1

http://www.alep.pr.gov.br/video/plano-geral-brasil-e-ira-bloco-2

http://www.alep.pr.gov.br/video/plano-geral-brasil-e-ira-bloco-3

terça-feira, 1 de junho de 2010

Justificando o injustificável...

Após atacar um navio que trazia ajuda humanitária a Faixa de Gaza,isolada por Israel há 2 anos,matando 10 pessoas e ferindo 30, o país judeu agora tenta justificar o injustificável: a truculência de sua ação. Nada,nada justifica que os soldados tenham aberto fogo contra os tripulantes de um navio que,como já era de conhecimento geral, era formado por parlamentares da União Europeia,membros de ONG's e até um sobrevivente do Holocausto. Mesmo que essas pessoas tenham reagido à invasão da embarcação como alega Israel,há maneiras não-letais de se controlar um grupo de pessoas.É revoltante ver pessoas dizendo que levar alimentos e remédios a uma população sitiada seja um "ato de terrorismo". Os manifestantes não ofereciam perigo algum aos soldados. Só queriam lembrar ao mundo o bloqueio que os habitantes de Gaza sofrem desde a incursão militar de 2008.Pensando bem,talvez este seja o perigo...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Uma vitória de Pirro?

Os 189 países signatários do Tratado de Não-Proliferação (TNP) reunidos em Nova York conseguiram chegar a um consenso na tarde desta sexta-feira e assinar uma declaração final, propondo um plano detalhado rumo ao desarmamento nuclear mundial e uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio.

A declaração final de 28 páginas foi aprovada por unanimidade hoje, último dia da conferência que durou um mês.O tratado passa por uma revisão a cada cinco anos e, na conferência de 2005, os países não conseguiram chegar a uma declaração final.
O documento final também determina uma nova conferência em 2012 "sobre o estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares e todas as outras armas de destruição em massa no Oriente Médio". Essa foi uma ideia dos países árabes para pressionar Israel a renunciar a seu arsenal nuclear não declarado.
Após a aprovação do acordo, o chefe da delegação iraniana, Ali Asghar Soltanieh, se uniu aos demais nos calorosos aplausos na sede da Assembleia Geral da ONU.

Porém,os países que não são signatários do TNP (no caso do Oriente Médio, Israel) não são obrigados a acatar a declaração. Israel não assina o TNP justamente para não se comprometer com declarações desse tipo,portanto o que muda? Muda apenas o fato de que os árabes estão aprendendo maneiras mais sutis de expor suas posições,usando os caminhos diplomáticos ao invés da propaganda panfletária,que desde sempre têm alcance limitado.
A ideia do bloco árabe é que,mesmo que essa declaração não surta efeito imediato, no longo prazo o mundo perceba que Israel não é um país minúsculo cercado de inimigos hostis por todos os lados (o que é uma simplificação, já que Israel possui relações diplomáticas com Egito e Jordânia e nunca teve problemas sérios com as monarquias do Golfo),e que os palestinos têm direito a negociações justas em pé de igualdade,de preferência com um mediador neutro, para que finalmente seja solucionado o problema da ocupação que já dura 43 anos. Recentemente surgiu na Palestina um movimento de resistência pacífica (registrado no documentário "Budrus" da diretora brasileira Julia Bacha),que optou um caminho nunca antes tentado naquela região: a da não-violência. Pode ser que este movimento demore anos para dar frutos,ou mesmo que se esvazie antes disso,mas talvez as vitória da diplomacia obtida hoje e a resistência pacífica possam dar a resposta que décadas de conflitos armados não deram.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Brasil pode dominar o ciclo nuclear ainda em 2010

O Brasil está pronto para dominar o ciclo nuclear completo em escala industrial, segundo o coordenador do Programa de Propulsão Nuclear da Marinha, capitão de mar e guerra André Luis Ferreira Marques. A inauguração da primeira fase da Usina de Hexafluoreto de Urânio (Usexa), prevista para este ano, permitirá que o País atue em todas as etapas do beneficiamento do mineral radioativo, desde a extração até a fabricação do combustível nuclear em grande proporção. Com isso, o Brasil ficaria independente de outros países no processo de enriquecimento, garantindo suprimento para as usinas nucleares e também para o futuro submarino nuclear.

No Centro Tecnológico da Marinha, no complexo militar de Aramar, em Iperó (SP), onde fica a Usexa, o ritmo das obras é acelerado. Na mesma área estão sendo construídos os prédios do Laboratório de Geração Nucleoelétrica (Labgen), responsável pela fabricação do reator do futuro submarino nuclear. "A Usexa começará a funcionar nos próximos meses em fase de comissionamento, quando são testados o sistema e os equipamentos para demonstrar que eles operam corretamente. As temperaturas, as pressões, as vazões, se as válvulas estão funcionando e se a instrumentação está dando informação confiável. Mas não vamos botar o urânio, ainda."

Segundo o militar, o 'yellow cake' - urânio em forma de um pó amarelo - só deve começar a ser processado em 2011. A Usexa é formada por 40 quilômetros de tubos, tanques, fornos e milhares de válvulas, onde o mineral é misturado com outros produtos químicos para sair em estado gasoso, o hexafluoreto de urânio, ou UF6.

O objetivo da Usexa é produzir combustível para o submarino nuclear brasileiro, que deve entrar em operação por volta de 2020. No complexo de Aramar serão produzidas 40 toneladas de UF6 por ano. Atualmente só seis países têm condições de fazer a conversão do 'yellow cake' em gás: França, Rússia, Canadá, EUA, Brasil e Irã. O UF6 que o Brasil usa ainda é processado no Canadá.
As informações são da Agência Brasil.
Fonte: http://noticias.br.msn.com/artigo.aspx?cp-documentid=24337259

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ron Paul para Presidente!

Em um discurso perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o deputado republicano (!) Ron Paul, do Texas (!!) expressou sua oposição ao Pacote de Sanções ao Irã referindo-se à legislação como " um dissimulado esforço para ir a guerra contra o Irã . "

Ron Paul traçou paralelos entre o impulso atual para isolar o Irã e os eventos que levaram à invasão liderada pelos EUA do Iraque em 2003: "Ouvindo o debate sobre a palavra sobre estas sanções me sinto como se estivéssemos em 2002 mais uma vez: as mesmas falsidades e distorções usadas para pressionar os Estados Unidos numa guerra desastrosa e desnecessária de um trilhão de dólares no Iraque estão sendo usadas outra vez para nos levar para o que provavelmente será uma guerra ainda mais desastrosa e cara no Irã. Os paralelos entre as situações são impressionantes. Quem acha que as sanções são uma maneira mais leve de punir um país está totalmente enganado: as sanções sempre levam ao passo seguinte.”

Continuando seu discurso, Paul foi crítico ao que ele descreveu como "alarmismo", as afirmações de que em um ano o Irã terá mísseis que capazes de atingir os Estados Unidos , e que o Irã será em breve capaz de detonar uma arma nuclear. No meio do seu discurso perguntou: “Onde nós já tínhamos ouvido antes tais alegações? “

O deputado também observou que o Irã, que é signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, nunca foi flagrado violando este tratado. Enquanto isso, Índia,Paquistão e Israel sequer são signatários do TNP e são considerados “amigos e lhes damos dinheiro”,tendo o Paquistão inclusive vendido tecnologia nuclear à Coreia do Norte sem qualquer punição. Além disso, observou Paul, o Irã não é capaz de enriquecer urânio até o nível necessário para fabricar armas nucleares. Finalmente, de acordo com a CIA, não há evidências de que o Irã esteja trabalhando atualmente em um programa de armas nucleares,embora segundo o deputado, eles certamente gostariam de tê-las,por que não? Estão cercados por vizinhos nucleares.

Ao finalizar seu discurso, Paul lembrou que “viramos o Iraque do avesso em busca de armas de destruição em massa,milhares de pessoas foram mortas e feridas e colocamos no poder xiitas aliados dos iranianos.”
Um dos comentários mais brilhantes do discurso do republicano é que os EUA estão colocando o Irã “no bolso dos chineses” ao interromper seu comércio com eles, o que “não faz o menor sentido”, e que a obsessão americana pelo controle dos recursos naturais remonta ao período do colonialismo.
Na internet já há um movimento pela candidatura de Ron Paul à presidência norte-americana em 2012. Estou pensando seriamente em aderir.

*Com a colaboração do professor Francisco Ferraz.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Cautela...

O Acordo Trilateral Brasil-Irã-Turquia foi uma vitória da diplomacia,mas que deve ser vista com as devidas reservas.Deve-se destacar que dificilmente o acordo sairia sem a participação do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan,que deu as garantias a Teerã da devolução do urânio que deverá ser enriquecido a 20%.Tal acordo deverá esfriar por ora a implementação de sanções,se o Irã cumprir sua parte.

Os mais céticos afirmam que o Irã ganha tempo para desenvolver secretamente um programa com fins militares,porém é de se pensar se o governo de Teerã manipularia assim dois dos únicos países que apoiam abertamente seu programa nuclear,justamente Brasil e Turquia. Se as expectativas mais pessimistas se confirmarem aí sim o irã ficaria definitivamente isolado e ninguém mais o defenderia das sanções.

Trata-se de uma discussão altamente ideologizada. Aqueles que são a favor das sanções partem da premissa de que nenhum país islâmico é confiável (com a possível exceção da Turquia,país-membro da OTAN,e que tem boas relações com EUA e Israel)e que o Irã manterá seu programa nuclear de forma clandestina. É possível. Mas não há evidências concretas a favor deste argumento,a não ser aquilo que o intelectual palestino Edward Said chamava de "wishful thinking", uma belíssima expressão de dificil tradução, mas que significa tomar os próprios desejos como realidade e basear suas decisões e raciocínios nesses desejos e não nos fatos,manipulando argumentos para que aquilo que queremos ou esperamos aconteça.
Ou seja, se os falcões israelenses decidirem lançar um "ataque preventivo" ao Irã não importa o que o regime de Teerã faça todos os gestos serão publicamente interpretados como "traiçoeiros" e "mentirosos" porque a decisão já está tomada de antemão. Assim ocorreu com o Iraque. Mesmo com os relatórios não-conclusivos dos inspetores da ONU acerca das armas de destruição em massa nunca encontradas, a administração Bush já havia decidido pela invasão e já movimentava tropas no Golfo Pérsico meses antes da invasão,gastando bilhões de dólares num projeto o qual não voltariam mais atrás,independente do que acontecesse na ONU, situação bem retratada no filme "W" de Oliver Stone.

Mas há vozes dissonantes: um artigo do jornal britânico "The Guardian" elogiou o acordo, classificando-o de positivo para todos, "exceto para aqueles em Washington e Tel Aviv que procuram desculpas para isolar ou atacar o Irã".O texto afirma que o evento foi a "estreia de uma nova força no cenário mundial, o eixo Brasil e Turquia".
Os dois países estariam "emergindo como a força global pelo compromisso e o diálogo que o movimento não alinhado nunca conseguiu ser".

Na Espanha, o "El País" diz que a consequência mais imediata do acordo "não será traduzida em termos nucleares, mas políticos, com um notável respaldo para a Turquia e em especial, para Luiz Inácio Lula da Silva".

O jornal diz que o Irã também sai fortalecido politicamente, já que o poder de nações não alinhadas parece ter sido prestigiado com o acordo. Além disso a China e a Rússia, que vêm relutando em aplicar as novas sanções, poderiam se basear no acordo para declarar as conversas sobre punições encerradas.

Para o "The New York Times", o presidente dos EUA, Barack Obama, tem agora em suas mãos uma decisão importante: se ele ignorar o acordo, pode emitir sinais de que está rejeitando termos muito parecidos aos que se dispôs a aceitar há oito meses, quando o Irã rejeitou a proposta francesa na última hora.

Por outro lado, se aceitar, muitos dos assuntos urgentes que deveriam ser discutidos com o Irã nos próximos meses (a maioria relacionados às suspeitas de produção da bomba atômica) terão que ser colocados de lado por pelo menos um ano ou mais.

Os 10 pontos do acordo Brasil-Irã-Turquia

Veja os dez pontos da declaração, segundo publicado pela agência de notícias iraniana Irna:

1- Nós reafirmamos nosso compromisso relativo ao Tratado de Não Proliferação (TNP) e, em acordo com os artigos relacionados do TNP, lembramos o direito de todos os Estados membros, principalmente a República Islâmica do Irã, de desenvolver pesquisa, produzir e utilizar energia nuclear (assim como um ciclo de combustível nuclear que inclua atividades de enriquecimento) para propósitos pacíficos.

2- Nós expressamos nossa forte convicção de que agora temos a oportunidade de começar um processo que criará uma atmosfera positiva, construtiva, de não confronto, que leve a uma era de interação e cooperação.

3 - Nós acreditamos que a troca de combustível nuclear é instrumental para iniciar a cooperação em diferentes áreas, especialmente no que diz respeito a uma cooperação nuclear pacífica, incluindo a construção de reatores de pesquisas e usinas nucleares.

4 - Baseado neste ponto, a troca de combustível nuclear é um ponto de partida para começar a cooperação e uma medida construtiva e positiva entre as nações. Tal passo deve acabar em uma cooperação e interação positivas no campo de atividades nucleares pacíficas e em evitar todos os tipos de confrontos abstendo-se de medidas, ações e declarações retóricas que possam prejudicar os direitos do Irã e obrigações decorrentes do TNP.

5 - Baseado nos itens acima, para facilitar a cooperação nuclear mencionada anteriormente, a República Islâmica do Irã aceita enviar um estoque de 1.200 kg de urânio levemente enriquecido à Turquia. Enquanto estiver na Turquia, este urânio permanecerá como propriedade do Irã. O Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) poderão acionar observadores para monitorar as condições de segurança deste estoque.

6 - O Irã informará a AIEA por escrito, por canais oficiais, a respeito deste acordo em sete dias após a data desta declaração. Após uma resposta positiva do grupo de Viena (Estados Unidos, Rússia, França, AIEA), os detalhes da troca de combustível serão objeto de um acordo escrito e arranjos apropriados entre o Irã e o grupo de Viena, comprometido especificamente a fornecer os 120 quilos do combustível necessários para o reator de pesquisas de Teerã (TRR).

7 - Quando o grupo de Viena declarar seu comprometimento com as condições e pontos desta declaração, ambas as partes se comprometerão com a implementação do acordo mencionado. O Irã expressou estar preparado, em acordo com a declaração, para enviar seu urânio pouco enriquecido em um mês.

8 - Se as condições desta declaração não forem respeitadas, a Turquia, a pedido do Irã, se compromete a devolver sem condições e rapidamente o urânio levemente enriquecido ao Irã.

9 - A Turquia e o Brasil recebem favoravelmente a disposição da República Islâmica do Irã em manter as negociações com os países do grupo 5+1 (Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha) em qualquer lugar, incluindo Turquia e Brasil, a propósito das preocupações comuns.

10 - Turquia e o Brasil apreciam o compromisso do Irã com o TNP e seu papel construtivo em buscar a concretização dos direitos nucleares de seus Estados membros. A Republica Islâmica do Irã, por sua vez, aprecia os esforços construtivos dos países amigos, Turquia e Brasil, em criar um ambiente condutor para a realização dos direitos nucleares do Irã.

Com France Presse
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u736306.shtml